Do poema não escrito que escrevi

 

(para José António Gonçalves e Herberto Helder)

 

© Dalva Agne Lynch

 

 

Quisera ter feito um poema que os acompanhasse.

Nem entendi quem escreveu o que - só me ficaram palavras.

Mas é sempre assim - a Arte fica e o autor se esvai.

Tem que ser assim. É uma droga - mas tem que ser assim.

De verdade, quisera que de repente minha verve não se tivesse esgotado

Junto com o tempo de hoje - ou de ontem.

Amanhã isto já vai ser coisa do tempo passado

E quando digo isto já é coisa do tempo passado, porque já disse.

Ah, e por que não calo a maldita boca?

Seja como for, quisera ter feito um poema para António e para Herberto

Ou mesmo um para cada um. Talvez assim teria direito

A sentar-me na cátedra da Literatura da Língua Portuguesa.

Mas a cátedra da Literatura Portuguesa pertence aos Literatos

Quer dizer, aos Antónios e Herbertos e - por que não? - às Natálias!

E aos Fernando Pessoas e Camões e Gonçalves Dias.

Eu? Pelamordedeus, nem sei onde ando!

Talvez me tenha colocado na figura que pintei hoje

Azul e rosa contra um fundo negro e vermelho. Grávida.

São as palavras, não-nascidas. Ou talvez nascidas mortas.

É por isto que não fiz um poema para José António Gonçalves

Nem um para Herberto Helder.

Muito menos para Pessoa ou Camões, é claro.

Mas olha que tentei - e quanto!

Mas só consegui poetar contra a Natália.

Afinal, ela mentiu.

 

 
 
 

 

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