O AMOR À TERRA
"...não sei se já vos disse
ou se ando a pensar alto:
chegou o tempo das colheitas
e nada mais será como dantes
nos campos das coisas simples
onde foi possível usar o corpo
e gritar às nuvens..."
in: Tempo das Colheiras : José António Gonçalves
é urgente vos anunciar
o verde da chuva que se derrama
e transborda mais do que o volátil sol
dos dias de primavera
e que um colírio se demora
nos campos ainda alvos e abertos
às tintas eternamente frescas
com que me ensinaste a desenhar
o amor à terra
ajuda-me
da escolha da semente às armas
dóceis do combate à praga
ao mofo e ao eco abafado
das palavras silenciadas
de um lado o trigo do outro o joio
no meio a chuva: eu e vós
o campo a papoula o sangue
pintados num mesmo lençol
e se conforme a chuva são as cerejas
duas delas sejam as nossas bocas
acordando a madrugada
como pólvora de fogos a germinar estrelas
em progressiva contagem
eis que se desdobra
o tempo das colheitas
Cissa de Oliveira
Poema 59 da "Série JAG"
21.04.05