Um ano de saudade

    Foi há um ano.

A 29 de Março  JAG  projectou-se para um voo eterno rumo a destino incerto.

Ficamos todos manietados a olhar para o horizonte compenetrados na sua vastidão.

Para trás deixou muitas saudades qual emigrante em busca de novos sonhos, deixando os seus, presos à mágoa da separação.

Há quem encontre na leitura  uma forma de aproximação ao poeta ido. Outros escrevem-lhe.

Aqui ficam alguns testemunhos.

 

Pai, queremos-te muito.

M.G.

 

   

 

 

SAUDADE

escrevo-te só para lembrar

nesta distância oceânica

como a saudade sabe a mar

(JAG)

 

       
 

Obrigado, José António Gonçalves

   

Um ano chega para perceber que o espaço e o tempo nada podem contra a força vulcânica da tua Alma, poeta Amigo .
Por muito funda que seja a cova fria, dela sairão sempre, qual lava incandescente, poemas quentes que marcam a prosa com que perfumavas a tertúlia .
Que estranhos são os sons da cidade a que faltam os calorosos risos que arrancavas das pedras da calçada .
Um ano terias acrescentado aos 50 em que deste sempre mais do que recebeste .
Mesmo ausente foste apedrejado, mas também agraciado. Chamam-te agora comendador, da Ordem do Infante, pelo mérito cultural e não só .
Um ano já lá vai, de encontros e desencontros, de sentimentos ora despertos, ora adormecidos
mas sempre fervilhando, qual sono de cão .
A lágrima já há muito deu lugar à surda alegria da amizade partilhada que se alcança para lá
da linha do horizonte .
Obrigado por continuares a ensinar-nos como se deve construir a casa :
« Espalha sorrisos e perfume de flores
nos lugares em que tocares ao de leve
com o brilho dos olhos » - JAG – “ A contrução da casa “, inédito , 27.06.2004 .

Castanheira Barros

 

poeta alado (um ano após a partida de JAG)

   

 

 

Continua chovendo.Que dirias tu da água que verte passado um ano depois de voares? Nos teus dedos também nasciam horizontes, como diria Eugénio, tinhas nas mãos essa vocação de jazigo, de fonte, de coral. Qualquer dom de partitura nas palavras alinhadas, cada uma seguindo o teu ritmo de poeta alado, rompendo o mundo das convenções, alargando as longitudes do olhar, quebrando imposições. E eras tão volúvel na ternura e nos afectos, grego e troiano dos sentimentos, das relações que querias simples. De tudo fizeste um poema, e mesmo voando para lá do nosso entendendimento terreno, era do verso derradeiro que teceste à vida com as cores de todos os crepúsculos que nos deste a beber para nos embriagarmos de música e humanidade. Que dirias tu hoje da água? Que dirias tu hoje das chuvas, e dos prados amadurecendo? Que dirias tu a nós, poeta alado - recitar-nos-ias a tua ode ao deus enfim encontrado?...
Aqui continua chovendo.
 

José Alexandre Ramos

in  http://quefarei.blogspot.com/2006/03/poeta-alado-um-ano-aps-partida-de-jag.html

 

Você não morreu

 

 

   Abro os olhos, o dia deve estar lindo, uma fresta de luz ganha alma gêmea num reflexo do espelho do quarto, o dia deve estar lindo e eu jamais pensara nisso, é esquisito, o que será que ele faz, estaria ao sol, escrevendo um poema, um poetrix, quem sabe, falando em passarinho, em infância, num olhar querido e há muito perdido na poeira da estrada, no cheiro da sopa de legumes, em casas de pedra, num colo de avó, em Pessoa, Ezra Pound, Natália, Oscar Wilde, Whitman, na água dos olhos da amada, na cor do vento, numa explosão do amor, nos silvados, não sei, mas por algum desses motivos é que o dia deve estar lindo, da cor de um papel desenhado com palavras boas, e eu paralisada, alguma coisa aqui, na minha mente, o que será que ele faz, o dia deve estar lindo, eu insisto sem querer, em pensar no que será que ele faz, na manhã da quarta, trinta de março de dois mil e cinco, eu me levanto, me enfeito, bebo café, ligo o computador, penso se acaso eu abrisse a janela, a alma gêmea do reflexo se expandiria ou se extinguiria, isso talvez dependa do ponto de vista, o dia deve estar lindo, eu vou fazer o seguinte, escrever um poema falando disso, o dia deve estar lindo, é esquisito, não sei porque eu cismo, é um ciclo, eu penso nele, no que será que ele faz, encolhe-se a lindeza, a luz dói nos olhos como uma personagem de um drama inexistente ou insolúvel, ausente, tal a tela do computador, está silencioso o dia, várias mensagens, nenhuma dele, no assunto o amigo diz, “o amigo JAG”, ali informa, morreu o amigo JAG, ontem de madrugada, é mentira, enfadado com a politicagem e com a perturbação da paz adormecida no coração das laranjas, ele disse “dia desses, me esfumaço; não te assustes", deve ser mentira, ele não morreu, você não morreu, viu, JAG, desculpe desmascará-lo em pleno aniversário não sei bem do que, nem se existia dia lindo pois só o vácuo, onde talvez com uma mágica se conseguiria escrever as palavras “perdão por ir embora”, ficou no seu lugar.



Cissa de Oliveira

29.03.06

 

 

 

A MONODIA DOS SINOS

 



 

esse poema tem tudo

para se chamar saudade



saudade...

dizem que o arco dessa paisagem

tem por gosto alimentar as noites

despidas de toda e qualquer luminosidade



e que então até as pérolas nas conchas

de repente se tornam negras

assumindo o aspecto adormecido dos afogados

sob a manta espessa da águas

lá onde a quietude se confunde à sombra

quando esta desce sobre a ostraria



é impossível ser impassível

à nuvem que embaça o olhar

mas à tua lembrança

a monodia dos sinos

e a cor das borboletas

entre as folhas do jardim

à tarde



esse poema tem tudo

para se chamar saudade



saudade...

o meu avô sempre alertava

fruta amarga

é venenosa ou estragada.




Cissa de Oliveira

 

   
 

 

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